Sábado, 23 de Maio de 2009

maracatron - quarta parte

quando foi a última vez que vimos uma boa partida? quando foi a última vez que subimos à superfície e andamos pelas galerias do estádio? na minha gaveta ficam jogadas algumas fotos que registram nossa alegria, minha, do jamerson e do jadeir, assistindo a uma partida de futebol. hoje caminhamos pelos corredores escuros, onde apenas piscam luzes intermitentes, vermelhas, amarelas... caminhamos e mal esbarramos em alguém. ouvimos ecos da torcida logo acima, que nos ignora. sentimos um certo arrepio por sabermos, intuitivamente, que a bola raspou a trave, que noventa minutos ainda não definiram um jogo.

outro dia flagrei johnson, o filho de john, com a orelha pressionada contra uma parede, tenso, tentando escutar o desenrolar de um jogo da seleção brasileira que, segundo ele, se propagava em ondas desde a superfície até aquele ponto exato. — contra quem? perguntei. — não sei... estamos perdendo. de repente ele olhou para mim e falou:
— estou acompanhando esse jogo há três dias...

então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante bombardeios regulares no coração do maracatron. mapeando o complexo em busca de distorções de realidade encontrou alguns pontos de reverberação, de onde emanavam sons que, aparentemente, provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a alguns pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. nesses pontos, com estetoscópios, ou com o rudimentar método de colar a orelha contra a parede, podia-se escutar o desenrolar de uma partida, mais precisamente aquela partida entre o brasil e uma seleção desconhecida. esse looping dimensional já durava três dias, até onde se sabia.

deixei johnson "monitorando" o jogo e saí a procura do jadeir, aquele cínico. acabei por encontra-lo no controle central debruçado sobre os monitores, atento aos gráficos e númeors que se multiplicavam nas telas em busca dos pontos específicos que irradiavam aquele jogo bizarro.

— pelo visto não fui o único a encontrar o johnson...
— e você acha mesmo que eu precisaria encontrá-lo para saber que algo está fora do lugar?
— o que há por trás dessa jogo?
— o de sempre... o estagiário de sempre bombardeou a partícula errada com outra partícula errada de sempre e agora deve estar tomando café no 5º subsolo. como sempre. filho da mãe...
— se você quer destruir o mundo basta arrumar um estágio no lugar certo. como vamos sair dessa?
— quem disse que ele arrumou um estágio aqui?

enigmático, maldito enigmático. onde ele queria chegar?

— e agora... o que vamos fazer?! — insisti.
— temos que descobrir qual é o outro time e utilizar esse dado no reversor fatorial de neutrons. talvez assim a gente consiga anular o looping e acabar o jogo.
— mas a gente tá perdendo, jadeir. não podemos acabar agora.
— volte para a sua cela!
— nós não vivemos em celas aqui, jadeir... mas em alojamentos.
— chame como quiser... olha, vou dar uma chance pros palhaços. se esse jogo já dura três dias, a gente pode deixar rolar mais um pouco.

de repente escutamos a voz de johnson ecoando pelos corredores e salas:

— levamos mais um!

jadeir correu desesperado para pegar o reversor fatorial de neutrons e executou cálculos complexos que eu jamais esperaria ele que conhecesse. foi como se a minha mãe começasse a falar aramaico de uma hora pra outra.

— vamos acabar com esse merda agora! aposto que é a argentina!

jogou o "argentina" codificado e anagramatizado no reversor, que emitiu sinais e ruídos típicos de um reversor fatorial de neutrons. por fim um apito pareceu soar dentro da minha cabeça. caí ajoelhado...

— é o apito final... o apito final. — murmurou jadeir.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

do destino de jamerson

jamerson olhou na direção do rio e se recusou a me entregar a bússola. sabíamos, ambos, que suas esperanças eram vãs, mas nem por isso tive coragem de lutar com ele para tomar-lhe o artefato. estávamos irremediavelmente perdidos e o caminho que trilhamos era daqueles que se apagam logo atrás dos nossos passos. à nossa frente estava a longa curva do rio que tanto buscamos em nossos sonhos e pesadelos.

sentados já à beira do rio, observando-o arrastar-se sobre a terra, fomos obrigados a falar um com o outro pela primeira vez desde nossa última discussão:

— você se entregou, desistiu... ou veio comigo só para tentar impedir-me no final?
— não haverá final, jamerson. não encontraremos as luzes. o mundo está mudando e você precisa entender isso.
— então vamos nos perder onde elas se perderam...
— eu quero voltar, jamerson. eu não quero me perder... além do mais, você confia demais nessa bússola.

ele começou a atirar pequenas pedras na água.

— não há para onde voltar. parece que você não sabe disso, somos tão indesejados quanto as luzes. espantaram tudo, clarearam a noite... não há refúgio. eu procuro as luzes porque quero seguir para onde elas seguiram, para onde ainda há espaço para gente como nós.
— eu não sou como você jamerson e não veja nisso que digo uma ofensa ou crítica. é verdade, eu vim com a esperança de te resgatar ainda que no minuto final... não cruze o rio, jamerson.


sorriu...

— e afinal suas esperanças são tão vãs quantos as minhas

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

os frequentadores do cine-fantasmo

você soube, zé, que o cine fantasmo, aquele antro imundo, fechou suas portas, suas loucas portas? aquelas portas por onde passamos tantas vezes com o velho pessoal do beco das luzes, quando ainda se viam as luzes pelo beco. nunca mais vi ninguém daquela turma e o beco foi o primeiro a sumir. juntaram duas quadras de velharias e sobrados, cercaram com tapumes e meses depois só havia vidro, alumínio, pessoas bonitas e lâmpadas econômicas que espantaram as velhas luzes... para que zonas perdidas da cidade? ali o pessoal se dispersou. dizem que jamerson saiu em busca das luzes, dizem que comprou uma bússola que apontava para elas. rumou na direção dos ponteiros e nunca mais foi visto. nem ele, nem as luzes.

e agora, zé, que não teremos mais as sessões da madrugada, quando era permitido beber. e bebíamos para entender e atravessar a barra pesada dos filmes que passavam no cine fantasmo. filmes que nunca foram vistos em outros lugares. como aquelas luzes. às vezes penso que se pularmos a cerca daquele condomínio e nos escondermos pela noite adentro e observarmos atentatemente, talvez com a ironia daquela época, veremos as luzes. talvez, zé, se nos sentarmos daqui a 20 anos entre os carros do estacionamento em que se transformará o prédio do cine fantasmo, possamos assistir aqueles estranhos filmes projetados no vazio. talvez jamerson reapareça.

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

das crônicas do fim do mundo

sentou ao lado do seu cão bem de frente para o supermercado. o movimento de pessoas entrando e saindo com suas compras, suas sacolas, agora de papel reciclado, o estranho colorido das embalagens combinadas com as lâmpadas fluorescentes que pairavam sobre as gôndolas de produtos e os corredores apinhados de consumidores atentos aos rótulos, escolhendo os produtos que protegem a natureza, que preservam a camada de ozônio e que não abusam da vida selvagem.

olhando tudo aquilo, voltou-se para o seu cão e murmurou: quando o mundo acabar, isso tudo será seu.

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correu pelas ruas da cidade enquanto a onda rugia nos calcanhares da civilização, gigantesca, inevitável. corria ignorando o pânico, a inutilidade dos automóveis e as mortes ao seu redor. emaranhou-se pela cidade, percorrendo caminhos que somente a água devastadora percorreria porque eram caminhos há muito perdidos.

alcançou, finalmente, o seu propósito, o centro horizontal e vertical da sua busca. recostou-se ofegante na parede do velho beco. o velho beco perdido na cidade e na memória. sentindo a pressão do volume de água que já varria em sua direção, olhou para o lado e viu uma garota, ofegante como ele, cansada de correr e que acabara de entrar no beco. ela tinha tido a mesma idéia que ele, e ninguém jamais saberia a razão.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

indícios de vida em marte

um singelo bilhete deixado sobre um dos painéis solares do "mars explorer": 

estamos aqui, vizinhos, mas vocês e seus aparelhos não conseguem nos enxergar. como podemos ajudá-los?

a câmera do módulo flagrou o bilhete no mês de outubro do ano passado, mas só agora vazou para o público. aguns mendigos de nova york seguiram o exemplo e deixaram no para-brisas de automóveis e mesas externas de restaurantes bilhetes que diziam: 
estou aqui, colega, mas você não me enxerga...